Livros: O Cachorrinho Samba – O início da série infantil de Maria José Dupré

“O Cachorrinho Samba” (Ática), o primeiro livro da série homônima produzida por Dupré ao longo de quase duas décadas. Nesta coletânea infantil, a escritora nascida em Botucatu coloca Samba, um Fox simpático e corajoso, como protagonista de suas tramas. O bichinho já havia estreado na ficção em “A Mina de Ouro”. Contudo, foi só a partir de “O Cachorrinho Samba” que o cãozinho foi alçado ao plano principal das histórias da autora. Não é errado dizer que ele se tornou a principal personagem da literatura jovem de Maria José Dupré.

Curiosamente, Samba foi inspirado no próprio cachorrinho que a escritora teve. Não à toa, a proprietária do Samba na ficção é uma mulher chamada de Dona Maria, escritora que desenvolve romances adultos e narrativas infantojuvenis. Ou seja, quaisquer semelhanças entre a literatura e a realidade não são meras coincidências… Maria José Dupré usou sua imaginação para construir aventuras sob o ponto de vista do Fox. Nascia, assim, uma das mais originais e ousadas séries infantis da literatura brasileira. A magia da ficção permite que animais conversem entre si e que sejam humanizados nas páginas dos romances. O resultado é um debate aberto por parte dos bichos sobre questões como desigualdade social, liberdade, gratidão, amizade, fidelidade e amor. Incrível como uma escritora criativa consegue levar o leitor atento (e mais velho) a um patamar de discussão mais elevado e, ao mesmo tempo, instruir as crianças de uma maneira divertida e profunda. A literatura infantil de Dupré, portanto, pode ser direcionada para toda a família. Na certa, os adultos que leêm essas obras para a meninada também irão sair maravilhados dessas leituras.

Publicado em 1949, “O Cachorrinho Samba” fez tanto sucesso na época de seu lançamento que seu protagonista deu origem a mais cinco obras. A série “O Cachorrinho Samba”, que foi traduzida para outros idiomas e lançada também no exterior, é completada por “O Cachorrinho Samba na Floresta” (Ática), de 1950, “O Cachorrinho Samba na Bahia” (Ática), de 1957, “O Cachorrinho Samba na Fazenda Maristela” (Ática), de 1962, “O Cachorrinho Samba na Rússia” (Ática), de 1963, e “O Cachorrinho Samba entre os Índios” (Ática), de 1966. Dessas tramas, a mais importante para Maria José Dupré foi “O Cachorrinho Samba na Rússia”. Esse título conquistou o Prêmio Jabuti de 1964 como melhor obra da literatura infantil. Ao lado do Prêmio Raul Pompéia recebido, em 1944, por “Éramos Seis”, o Jabuti de 1964 foi a principal honraria literária recebida pela autora em sua carreira.

O livro “O Cachorrinho Samba” apresenta a chegada do Fox à casa de Dona Maria e do Doutor. É nesse lar que o cãozinho de apenas dois meses passa a morar. Completam esta família a menina Vera, filha de Dona Maria e do Doutor, e a Vovó. Dermina e Pedro são os funcionários da residência, que também é habitada por Whisky, um Vira-lata encrenqueiro que gosta de passear sozinho na rua. Assim que Samba é incorporado ao lar de Dona Maria, ele é bem-recebido por todos, que não se cansam de distribuir carinhos e afagos ao novo morador. O único que parece um pouco enciumado é Whisky. Porém, não demora muito até o Vira-lata se tornar amigo do Fox.

Samba ganha esse nome porque sua chegada à casa de sua família acontece em fevereiro. Por ser época de Carnaval, os sambas entoam na maioria das estações de rádio. Por gostar de brincar e de pular, o cãozinho não para quieto. Vendo a animação do pequeno cachorrinho, os moradores da residência dizem que o Fox parece passar o dia dançando. Assim, não demora muito para todos passarem a chamá-lo de Samba.

A vida de Samba na residência possui muitos prazeres diários. O cachorrinho pode brincar no quintal da casa, onde corre atrás de borboletas e de passarinhos. O pequeno animalzinho de estimação se diverte observando os bichinhos que transitam pelo jardim. O Fox tem uma alimentação muito boa. Dermina reserva parte da comida feita aos patrões para o cachorrinho. Ele também pode tirar longos cochilos no colinho da Vovó. À tarde, Samba faz sua caminhada pelas ruas do bairro. Ele é levado por Vera ou por Pedro em um passeio de coleira. O que mais um cachorrinho pode querer da vida, hein?!

Samba sabe a boa-vida que tem na casa de Dona Maria. Por isso, ele fica intrigado com as reclamações que Whisky faz diariamente. O velho Vira-Lata vive inconformado por estar preso dentro dos muros daquela residência. Por isso, ele gosta de pular o portão e fazer longos passeio sozinho pelas ruas do bairro. Esse hábito de Whisky deixa todo mundo na casa muito preocupado. Uma vez fora do portão de seu lar, um cachorro fica sujeito a incontáveis perigos. Samba concorda com a visão dos seus donos sobre os perigos das ruas e não entende o comportamento arruaceiro de Whisky. Mesmo com as diferenças de opiniões sobre a vida canina, os dois cachorros se dão muitíssimo bem.

Certo dia, Samba encontra o portão da sua casa aberto. Por mais que tenha medo de encarar sozinho os desafios do exterior, a curiosidade por dar um passeio sem coleira é mais forte. Assim, o cãozinho resolve dar uma voltinha pelas redondezas do bairro. Nessa caminhada, Samba encontra Cricri, um cão que mora na vizinhança. A dupla resolve perambular junta e conversar sobre a vida. Quando fica tarde, Cricri, que é mais velho e muito mais experiente nas saídas para a rua, decide retornar para seu lar. Samba, querendo se mostrar valente e descolado, resolve estender um pouco mais seu passeio, não retornando com o amigo. O problema é que logo escurece e o cãozinho de Dona Maria se perde. Sem encontrar o caminho de volta para sua casa, o Fox acaba vagando perdido pela cidade. É o início do drama de Samba. Ele precisará ser muito esperto para sobreviver aos perigos e as maldades da cidade grande.

“O Cachorrinho Samba” possui 128 páginas, que estão divididas em 26 capítulos. Diferentemente de “A Ilha Perdida” e “A Mina de Ouro”, que eram obras infantojuvenis, este livro de Maria José Dupré possui uma pegada mais infantil. São várias as descrições de cenas corriqueiras da vida canina: caçada às borboletas no jardim, conversa com Whisky, viagem com a família para o interior, brincadeira de pega-pega com as crianças e espera da volta dos donos das férias, por exemplo. Dessa maneira, este título é mais indicado às crianças (até dez anos) do que aos adolescentes. Li esta publicação em aproximadamente duas horas no último domingo. Como obra infantil, é inegável sua qualidade. Quem gosta de animaizinhos de estimação e adora apresentar narrativas literárias com bastante conteúdo para os jovens leitores, “O Cachorrinho Samba” é um livro excelente.

Comparando com os títulos infantojuvenis anteriores de Maria José Dupré, “O Cachorrinho Samba” possui algumas semelhanças, mas também tem algumas importantes diferenças. As semelhanças são relativas ao enredo, ao tipo de narrador, à escolha das personagens e à atemporalidade da trama. Como já havia ocorrido com “A Ilha Perdida” e “A Mina de Ouro”, temos novamente uma história em que o protagonista fica preso em um lugar perigoso e tem que encontrar sozinho (sem a ajuda dos adultos) um caminho de volta para sua casa. O narrador permanece sendo de terceira pessoa e do tipo observador. A maioria das personagens usadas neste livro, principalmente os integrantes da família de Dona Maria, já é velha conhecida dos leitores de Dupré. Quase todos já foram citados nas obras anteriores da escritora. E, por fim, temos mais uma vez uma trama atemporal. A história do Fox que se perde na rua continua atualíssima ainda hoje.

A primeira grande diferença de “O Cachorrinho Samba” está no papel desempenhado pelas crianças da família. Se anteriormente Vera, Henrique, Eduardo, Quico, Oscar, Lúcia e Cecília eram protagonistas das tramas de Dupré, agora eles são meros coadjuvantes. O protagonismo passa a ser totalmente de Samba. O narrador cola no cachorrinho e acompanha todos os seus passos por onde ele vai.

Outra mudança sensível é na velocidade da narrativa. Ao invés do ritmo ágil e com muitas ações de “A Ilha Perdida” e “A Mina de Ouro”, “O Cachorrinho Samba” apresenta uma história muitíssimo mais lenta e com muitas descrições banais da rotina do cãozinho. Essa nova velocidade fica nítida já nos primeiros capítulos. A contextualização da chegada de Samba à nova residência leva intermináveis 50 páginas. Só a partir daí, estabelece-se o conflito do romance infantil (o protagonista faz um passeio sozinho na rua e não consegue voltar para casa). Ou seja, precisamos ler quase metade do livro para alcançarmos seu conflito. Vale lembrar que Dupré usou apenas quatro páginas (sim, eu disse quatro páginas!) para chegar a este mesmo ponto em “A Mina de Ouro”.

Os dois aspectos que mais gostei deste livro foram as conversas entre os animais e a pegada de crítica social desses diálogos. Em muitos momentos desta leitura, recordei de “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras), clássico de George Orwell que se utiliza desses dois expedientes. É legal saber que a fábula do inglês tinha sido lançada quatro anos antes da publicação de “O Cachorrinho Samba”. Muito provavelmente, Maria José Dupré conhecia a obra de Orwell e se inspirou nela para construir sua história voltada para o público infantil.

A conversa entre os bichos permite que olhemos a vida do ponto de vista deles. Essa nova perspectiva abre caminhos para uma narrativa mais rica e inusitada. A crítica social surge quando os animais mostram as diferenças entre as famílias de humanos das classes altas e das classes baixas. Eles também expõem a maldade praticada pelos homens à natureza e aos bichos e a vida dura na rua. Por outro lado, os cachorros sabem valorizar a amizade, a gratidão, o amor e a fidelidade.

Quem gosta de procurar passagens intertextuais nos romances lidos, “O Cachorrinho Samba” possui algumas. Há citações diretas a “A Montanha Encantada” e a “A Ilha Perdida”, duas obras infantojuvenis de Maria José Dupré. E há a menção a uma história real de um Akita japonês que esperava seu dono retornar do trabalho todos os dias na estação de trem. Essa trama se transformou recentemente em um filme protagonizado por Richard Gere, “Sempre ao Seu Lado” (Hachi – A Dog’s Tale: 2009).

A perenidade da literatura infantojuvenil e infantil da escritora paulista é explicada fundamentalmente pela qualidade do material produzido. Com tramas ricas, atemporais e criativas e um estilo de escrita bastante moderno, os títulos de Dupré permanecem como ótimas opções de leitura para crianças e adolescentes do século XXI.

Por: Ricardo Bonacorci

bonashistorias.com.br

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